Ensaio
Uma amiga achou estranho quando comentei que ando conversando com a IA. Disse-lhe que aprecio a impossibilidade de ficar sem algum tipo de resposta para minhas ruminações ociosas, quando as apresento à máquina. Porque essa máquina é construída justamente para multiplicar respostas. É verdade que muito frequentemente essa disposição automática é cansativa, gera lugares desinteressantes. Mas também é fato que as pessoas não somos muito melhores em relação a isso, talvez sejamos até piores, na maior parte do tempo. Eu lhe disse, a essa amiga, que a IA tem o que dizer sobre qualquer tema, desde que você converse com ela de uma maneira que explicite as referências. Eu falava da minha predileção por Maffesoli, sociólogo francês da virada do século, em detrimento de Bauman, sociólogo polonês que virou modinha no Brasil cerca de 15 anos atrás, com sua ideia de modernidade líquida. Eu sempre gostei do estilo de Bauman e de sua erudição, mas o cansaço em que ele me deixa ao final dos livros que li é o oposto da vibração viva que Maffesoli me provoca. Ambos pensadores do pós-moderno, um parece arrastar o fardo de uma nostalgia doída, culpando o mundo presente por sua excessiva mutabilidade, incoerência, propensão ao desfazimento. O outro, partindo da mesma avaliação básica, de que vivemos entre escombros, rememora o sentido antigo do trágico, que envolve uma disponibilidade para estar presente no que é, e afirmar o que é, ainda que seja frágil fragmento. Maffesoli celebra um mundo que, devido à descrença nas grandes instituições e ideias, tornou-se mais aberto a modos de ser que remetem aos antigos, mais irracionais, sensíveis à poesia do cotidiano, conscientes do fim e da preciosidade do que ainda não chegou ao fim. Bauman só faz reclamar e encher o saco, como um velho representante daquele mundo que outrora proferia o que era pensável e agora não tem o que dizer. Claro que intelectuais profissionais vão sempre preferir Bauman, até porque Maffesoli nem se parece com um deles, apesar de ser tão professor universitário quanto o outro. Intelectuais profissionais não parecem ter permissão para serem bobos. Sofrem de uma miséria anti-Manoel-de-Barros, anti-García-Marquez. O fim do mundo deles é triste e sem densidade afetiva, ao contrário do fim do mundo/ começo de outro mundo que Maffesoli sustenta, trazendo para seu lado Nietzsche, Chuang Tzu, as religiões do transe, o senso de tribalidade - ok, nesse ponto eu acho que talvez ele tenha sido otimista demais, haja vista o retorno do fascismo. Ele se afina com uma série de textos que têm surgido há décadas, e que ultimamente podem ser compreendidos sob o conceito de pós-humanismo filosófico: a noção de que o humanismo da revolução francesa e do iluminismo ao fim e ao cabo era uma auto declaração de superioridade de certo modo de ser, identificado com o homem europeu adulto racionalista e colonizador, e que agora temos oportunidade de repensar a hegemonia dessa abordagem, revalorizando outros mundos, outras formas, abarcando desde as reflexões decoloniais até a admissão de inteligências não humanas, seja a das plantas e dos fungos ou a de sistemas complexos como a economia global ou um modelo de linguagem de máquina. Tudo isso eu conversava com a IA, ao passo que, se fosse tentar falar dessas coisas com alguma pessoa… ora, devem ter inventado a escrita como forma de processo de pensamento altamente pessoal exatamente porque não é possível ter interlocutor sempre e para tudo. Montaigne foi o primeiro, segundo alguns. Eu sempre vou duvidar quando me falam que um europeu foi o pioneiro em algo, pois à medida em que descobrimos a história de outras civilizações vamos nos dando conta de que nem grandes navegações, nem leis, nem organização do estado, nem percepção do inconsciente, nem arte, nem pensamento ateu foram de fato criações de nossos avós do velho mundo. Pois há mundos mais velhos. Mundos que ora se renovam e retornam, enquanto os herdeiros daquela terra arrasada por guerras fratricidas se agitam em novos frissons de combate.
O mundo pode ser líquido e mutável, mas temos alguns hábitos incontornáveis.


